O dia em que fui no Epcot do mal

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Quem já viu meia dúzia de posts deste blog, sabe o quanto sou louco por parques de diversões. Final de 2016, em minha última viagem, estava visitando um amigo em Berlim, quando ele me fez a seguinte proposta: “Quer ir numa estação abandonada da Guerra Fria?”. “Hum.”, eu disse com dúvida e interesse. “Parece o Epcot do mal”, ele replicou. E foi aí que me convenceu.

No dia seguinte, a jornada começou na estação Grunewald do S-Bahn (rede de trens rápidos de Berlim), bem a oeste da área central da cidade, mais ou menos na região do Estádio Olímpico e da Messe Berlim (centro de convenções). Da saída do trem até o destino final foram em torno de 30 minutos de caminhada no meio do mato, em paisagens que poderiam fazer parte tranquilamente de filmes de terror found footage, daqueles que o latino (leia-se: o brasileiro aqui) sempre morre primeiro. A falta completa de sinal no meu celular com chip alemão não ajudava em nada.

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Mas pensamentos ridículos a parte, o caminho é até bem interessante de se olhar e, aos poucos, fomos encontrando outros viajantes indo para a mesma aventura. Durante o percurso, meu amigo explicou o que era exatamente o tal “Epcot do mal”. O lugar se chamava Teufelsberg, uma construção datada de pouco depois da Segunda Guerra, que chegou a ser usada como estação de escuta pelos americanos durante a Guerra Fria. Desde que foi abandonada, virou um grande museu e galeria a céu aberto, até começar a cair nas graças de alguns turistas mais curiosos.

Chegamos por volta de 14h e realmente a primeira visão causou um impacto enorme. O lugar parece um cenário de filme pós-apocalíptico, com muitos objetos antigos, carros queimados e paredes desgastadas. Ao mesmo tempo, após sucessivas ocupações artísticas, a quantidade de pinturas e grafites é impressionante. Imaginem o conteúdo que existe no East Side Gallery do Muro de Berlin, só que maior, mais chamativo e talvez mais transgressor. E olha que o passeio só estava começando.

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Saindo da área do “jardim” (com muitas aspas), começamos a subir o prédio principal. Os primeiros andares são basicamente grandes salões, já completamente destruídos, com algumas intervenções artísticas. Conforme fomos subindo que a coisa foi ficando mais interessante. A primeira parada foi a grande varanda com as duas bolas que renderam o apelido “Epcot do mal”. Realmente lembra um pouco, embora estas em questão sejam cúpulas com acústicas quase perfeitas. Ali ficamos por alguns minutos, tirando muitas fotos e admirando a paisagem.

Continuando a jornada, pegamos uma escadaria enorme e completamente sem iluminação que leva até uma terceira cúpula bem no topo da construção. Diferente das anteriores, esta cúpula tem até hoje uma acústica perfeita, de uma forma que eu não sabia ser possível. Visualmente o lugar já é impressionante, com pinturas enormes e traços de destruição por todo o lado. Mas a parte sonora é coisa de outro mundo (para mim pelo menos). O mais baixo sussurro, ou um simples assovio, ressonavam no ambiente como um tiro amplificado por um microfone. Não importa se você gritar ou falar algo baixinho para alguém próximo, todos dentro da cúpula vão escutar perfeitamente.

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Não sei quanto tempo ficamos ali experimentando os sons, mas deve ter passado de 30 minutos tranquilamente. Só sei que despertei para a vida quando comecei a sentir sede e vontade de ir ao banheiro. Descemos novamente para dar mais uma volta e tirar algumas fotos, mas para falar a verdade não tinha muito mais o que ver. Até que um conhecido nosso, o sujeito que deu a ideia inicial de visitar o Teufelsberg, veio com a proposta de irmos na parte em que visitantes comuns não podem ir. Aparentemente ele tinha alguns contatos internos e podia nos proporcionar este “extra” no passeio.

Voltamos ao térreo e passamos por uma porta com um sinal bem convincente de “Proibido Ultrapassar, ou você será incinerado” (a 2º parte não tenho certeza se era isso, mas assim guardo nas minhas memórias…). O lugar de início não impressionou muito, mas conforme avançamos, o ceticismo deu lugar a incredulidade. Parecia de verdade uma locação de The Walking Dead, ou qualquer filme pós infecção zumbi. Se tivesse que imaginar, diria que eram grande escritórios e áreas burocráticas que foram abandonadas há pelos menos 30 anos, sem que nenhum ser humano jamais tenha pisado lá para fazer qualquer manutenção. Os únicos indícios de vida humana ali eram as intervenções artísticas deixadas pelas paredes, que hora eram engraçadinhas, hora tendiam para o macabro. Infelizmente, em respeito aos pedidos feitos pelo nosso conhecido, nesta área não tiramos nenhuma foto.

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Novamente perdemos um pouco a noção do tempo. Quando saímos do complexo “proibido” já estava escuro e mais frio do que nunca. Nos despedimos do Teufelsberg e fomos descendo a montanha rumo a civilização. O caminho na floresta estava quase no breu completo e praticamente só conseguimos voltar por conta de um outro conhecido local que prontamente nos guiou de volta até a estação. Por ali, sem luz nenhuma, sem seres humanos perto, sem 3G, não há Google Maps que te guie. Mas no final deu tudo certo e assim terminou uma das experiências de viagem mais surreais que já tive na vida.

A visita pode ser feita por qualquer um (vimos até pais com crianças), mas aparentemente é pago e tem horários pré-determinados. Aqui vou ficar devendo a informação, por que tínhamos este conhecido que de alguma forma era amigo de pessoas locais e nos deu acesso privilegiado. Mas quem tiver curiosidade, acesse o link que deixei logo abaixo para ter mais informações sobre a visitação. Prometo que não vão se arrepender.

Página ‘oficial’ do Facebook: www.facebook.com/TeufelsbergBerlin

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